A PIOR RELIGIÃO QUE JA EXISTIU



Embora as religiões preguem a paz, a compaixão e o amor ao próximo, a história revela um rastro profundo de violência em seu nome. Judaísmo, cristianismo e islamismo, tradições que compartilham uma mesma raiz, reivindicam para si a verdade absoluta. E onde há uma verdade absoluta, toda outra visão precisa, inevitavelmente, ser considerada falsa.

A lógica é simples e perigosa: para que minha crença seja a correta, a sua precisa estar errada. O sentimento de eleição, a ideia de ter sido escolhido entre muitos, dá ao indivíduo não apenas um propósito, mas também uma responsabilidade: provar sua lealdade. É aí que tudo começa. A religião se torna um divisor, não há espaço para neutralidade. Ou se é a favor, ou se está contra.

Religiões politeístas, ao longo da história, mostraram-se mais tolerantes à diversidade de crenças. Já o monoteísmo, com sua noção de um único deus verdadeiro, estabeleceu fronteiras intransponíveis, até mesmo dentro das famílias. Onde antes se aceitava coexistência, agora havia separação, exclusão, perseguição.

Os judeus reivindicaram sua aliança com deus há cerca de quatro mil anos. No entanto, com o surgimento do cristianismo, essa identidade foi desafiada. No século IV, padres da Igreja declararam que os judeus eram “filhos do diabo” e “inimigos da humanidade”. O Concílio de Niceia (325 d.C.) os responsabilizou pela morte de Jesus — acusação que só foi oficialmente retirada em 1965, no Concílio Vaticano II. Mas o estrago já estava feito: dois milênios de perseguições, pogroms, conversões forçadas e massacres. Na Inquisição, milhares foram queimados vivos. Para muitos, a conversão foi a única chance de escapar da morte.

Por outro lado, também há sangue nas mãos dos judeus. O próprio texto bíblico, no livro de Números (capítulo 31), descreve Moisés enviando um exército contra os midianitas, descendentes de Abraão com Quetura. Após a vitória, todos os homens foram mortos, e as mulheres e crianças capturadas. Moisés se enfureceu por não terem sido mortas também as mulheres que haviam tido relações sexuais. Ordenou que apenas as virgens fossem poupadas, como se elas, traumatizadas, pudessem aceitar seus captores como maridos. A lei divina ainda permitia que, após trinta dias de luto, o guerreiro se deitasse com a mulher capturada, e, caso não a quisesse mais, a deixasse partir, desde que não a vendesse. (Deuteronômio 21)

No século VII, o Islã iniciou sua própria expansão. Em nome da fé verdadeira, exércitos partiram da Península Arábica para conquistar o Oriente Médio, o norte da África e parte da Europa. Séculos depois, os cristãos reagiriam. Em 1095, o papa Urbano II lançou as Cruzadas para recuperar Jerusalém. A promessa era simples: quem fosse à guerra teria seus pecados perdoados. Jerusalém virou um cemitério a céu aberto.

O IV Concílio de Latrão proibiu judeus e muçulmanos de ocuparem cargos públicos e os obrigou a se identificarem por suas vestes, uma política reeditada por Adolf Hitler, cujo antissemitismo encontrou raízes férteis em mitos religiosos alimentados por séculos.

A pior forma de religião não é apenas a que mata em nome de deus, é a que destrói vínculos humanos. Quando não se pode eliminar o corpo, elimina-se a alma: divide-se famílias, rompe-se laços. Algumas tradições pregam que, se alguém ama pai, mãe, cônjuge ou filhos mais do que a deus, não é digno d’Ele. (Lucas 14:26)

E quando um membro questiona a doutrina, sua pena pode ser a morte, a expulsão, o abandono. O Antigo Testamento ordena que se apedreje até a morte quem tentar desviar outro da fé. (Deuteronômio 13:6-11). No Novo Testamento, há recomendações de entregar o herege a Satanás, não o cumprimentar, não o receber em casa. (1 Coríntios 5:5; Gálatas 1:8; 2 João 1:10-11)

Muitos desses textos continuam sendo usados para justificar o preconceito, o julgamento e a exclusão. É assim que as religiões, ao invés de libertar, tornam-se prisões disfarçadas de santidade. Não buscam entender o outro, apenas condená-lo por não se enquadrar em seus dogmas.

Jesus, existindo ou não, foi sem dúvida um pensador revolucionário para seu tempo. Mas o que a maioria busca nas religiões não é a sua sabedoria, e sim um ideal inatingível de perfeição, um super-homem espiritual a ser copiado. O problema é que esse modelo frequentemente exige sacrifícios que ferem o próprio amor que se prega.

Então, pergunte a si mesmo: vale a pena afastar-se de quem você ama por causa de uma religião? Se deus realmente existe, será que ele exigiria que você negasse o amor por um filho, por um irmão, por um amigo… para provar sua fidelidade?

Talvez o verdadeiro teste de fé não seja seguir cegamente um dogma, mas continuar amando apesar dele.

Cleiton dos Santos










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