ENTRE INVERNOS E VERÕES
Às vezes, me chamam de inteligente porque escrevi alguns livros. É um elogio que escuto com respeito, mas também com certa estranheza. Não me vejo como alguém acima da média, nem como um ser excepcional. Se há algo em mim que destoa, talvez seja uma inquietação constante, uma sede insaciável por compreender e, talvez por isso, pareça que sei mais do que realmente sei. Inteligente? Não sei. Anormal, talvez. Mas não raro.
Cada livro que escrevi carrega anos de esforço, dúvida, revisão, recomeços. Um deles, em especial, levou quatro anos até ser finalizado. Os outros são frutos de um processo igualmente longo, resultado de noites em claro, leituras intermináveis, momentos de frustração e lampejos de descoberta. Não são obras feitas por inspiração repentina, mas por insistência, por persistência, por paixão.
A química, por exemplo, é um campo que só recentemente passou a me interessar. É um território novo que venho explorando com curiosidade, quase como uma criança diante de um mundo ainda por decifrar. Já a história e, mais especificamente, a história das religiões é algo que me atravessa de forma mais profunda. É uma sede que nunca passa. Um chamado que me acompanha desde que me entendo por alguém reflexivo. Compreender o fenômeno religioso suas origens, suas expressões, suas contradições tornou-se, sem que eu planejasse, o fio condutor da minha pesquisa de vida.
Gosto de comparar o conhecimento com as estações do ano. Há períodos em que me recolho como no inverno. São momentos de introspecção, quando me debruço sobre livros, mergulho em estudos densos, silencio o mundo ao redor para escutar melhor os ecos internos do pensamento. É um tempo de gestação, de preparação, de fertilização interior. Mas chega também o verão e com ele, a explosão da vida. As árvores brotam, os animais saem de suas tocas, e aquilo que antes era apenas semente em mim começa a florescer. É quando as ideias ganham forma, os textos se escrevem quase sozinhos, as palavras encontram seu lugar. O que estava incubado começa, enfim, a existir no mundo.
E não, isso não é vaidade. É orgulho. E o orgulho, quando nasce da dedicação, da renúncia, do amor genuíno pelo que se faz, é legítimo. Me orgulho porque sei o preço das minhas conquistas. Sei o quanto precisei abdicar, o quanto precisei resistir à tentação de desistir. Podem me tirar tudo os bens, os títulos, até a liberdade mas o conhecimento que adquiri é verdadeiramente meu. Não porque o possuo como se fosse um objeto, mas porque ele me constitui. Ele é parte de quem sou, da minha identidade, da minha forma de estar no mundo.
E mais: o conhecimento que cultivo não morre comigo. Ele sobrevive nas obras que deixo. Nos livros, nas ideias, nas conversas que um dia ecoarão além de mim. É essa a beleza de aprender e compartilhar a certeza de que, mesmo quando minha presença física não estiver mais aqui, uma parte de mim continuará germinando em outros solos, como sementes espalhadas pelo vento. Esse é, para mim, o verdadeiro legado: não a fama, não o reconhecimento, mas a possibilidade de tocar o tempo com aquilo que aprendi, compreendi e transformei em palavra.
Cleiton dos Santos
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