O Sentido Que Inventamos

A vida, por si só, não vem com manual nem com propósito inscrito. É um palco vazio antes que as cortinas se abram, um vaso de barro ainda sem forma. Somos nós que, consciente ou inconscientemente, damos contornos a essa massa informe chamada existência. Alguns mergulham as mãos na argila da criação e moldam deuses à sua imagem e semelhança, esculpindo crenças que se tornam abrigo contra o vento gelado do acaso. Encontram conforto na ideia de um sentido pré-escrito, como se a dor fosse parte de um roteiro sagrado e o destino, um velho amigo que sabe o caminho.

Outros, porém, percebem o palco sem roteiro e a ausência de direção como um fardo quase insuportável. Bukowski foi um desses. Ele não buscou consolo no altar, mas nos bares. Não procurou a salvação nas orações, mas nas palavras cruas que arrancava de si mesmo entre um trago e outro. Para ele, os livros eram não apenas janelas para outros mundos, mas também garrafas invisíveis, onde cada página servia um gole de lucidez ou de desespero, dependendo do dia.

Há os que chamariam isso de fuga; outros diriam que é apenas mais uma maneira de suportar o peso silencioso da vida. Porque, no fundo, todos nós, de uma forma ou de outra, estamos tentando sobreviver à vertigem do existir. Alguns se agarram à fé, outros à arte, outros ao vício, e muitos a tudo isso, misturado.

No final, talvez a grande ironia seja esta: o sentido que buscamos com tanto esforço não está escondido em algum ponto distante, esperando ser encontrado. Ele nasce todos os dias, no ato de escolher como atravessar a próxima hora. Entre a argila, o altar, o copo e a página, cada um molda sua própria estratégia para não ser engolido pelo vazio.

Cleiton dos Santos 

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