Genialidade e Ruína
Ontem a vida me fez encarar uma pergunta que não cabe em respostas simples.
Um amigo que eu admirava desde muito novo, pela genialidade com a música, pela sensibilidade que parecia atravessar o ar quando ele tocava, me ligou dizendo que não tinha para onde ir. Aquele que um dia vestia terno, fazia churrasco comigo e parecia tocar o céu com as notas musicais, agora estava magro, barbado, sem banho, morando na rua.
Ofereci uma cama. Um prato de comida. Um abraço. Conversamos. Tocamos violão. Por alguns instantes, o céu parecia ainda reconhecer suas mãos.
Mas algo dói mais do que a aparência transformada. Dói o mistério da queda.
O que leva um gênio, capaz de elevar almas com sua arte, a usar veneno para anestesiar as próprias feridas? Que tipo de dor faz alguém trocar aplausos por esquecimento? Ele se esconde nas drogas ou tenta fugir de algo que nunca conseguiu enfrentar? Talvez o vício não seja a causa, talvez seja o refúgio.
Hoje cedo saí e ele ainda dormia. Quando voltei, minhas coisas de valor tinham ido com ele. Não foi apenas um objeto que se perdeu. Foi a confiança. Foi a imagem que eu guardava. Foi uma amizade que atravessou anos e, de repente, pareceu se partir em silêncio.
E então as perguntas ficam maiores que o prejuízo material:
Onde está sua razão?
O que aconteceu com aquela alma boa?
Ela ainda está lá, soterrada por camadas de dor? Ou se perdeu no caminho?
Talvez a tragédia humana não esteja apenas na queda, mas na distância entre quem fomos e quem nos tornamos. A música ainda vive nele, eu vi isso ontem. Mas há batalhas internas que desafinam até os maiores talentos.
Fico pensando que algumas pessoas não deixam de ser luz; apenas se perdem no próprio labirinto. E às vezes, ao tentar salvá-las, descobrimos que também precisamos proteger o que há de inteiro em nós.
A genialidade pode tocar o céu.
Mas é a alma ferida que precisa aprender a permanecer na terra.
Cleiton dos Santos
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